dissabte, 19 de juny de 2010

As intermitências da morte

Durante um minuto ninguém falou. O mais velho dos pessimistas deixou que um vago e suave sorriso se lhe espalhasse na cara e mostrou o ar de quem tinha acabado de ver coroada de êxito uma difícil experiência de laboratório. sendo assim, interveio um filósofo da ala optimista, porquê vos assusta tanto que a morte tenha acabado. Não sabemos se acabou, sabemos apenas que deixou de matar, não é o mesmo. De acordo, mas, uma vez que essa dúvida não está resolvida, mantenho a pregunta. Porque se os seres humanos não morressem tudo passaria a ser permitido. E isso seria mau, perguntou o filósofo velho, Tanto como não permitir nada. Houve um novo silêncio. Aos oito homens sentados ao redor da mesa tinha sido encomendado que reflectissem sobre as consequências de um futuro sem morte e que construíssem a partir dos dados do presente uma previsão plausível das novas questões com que a sociedade iria ter de enfrentar-se, além, escusado seria dizer, do inevitável agravamento das questões velhas.

Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, o pior é que o futuro é já hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguros, e, salvo o caso

destas, que sempre hão de encontrar maneira de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em perigos tudo o que a mais delirante imaginação pudesse conceber, sem pretender ser irónico, o que nas actuais circunstâncias seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos conceituado do sector protestante. Parece-me que esta comissão já nasceu morta, os lares do feliz ocaso têm razão, antes a morte que tal sorte, disse o porta-voz dos católicos. Que pensam então fazer, perguntou o pessimista mais idoso, além de propor a extinção imediata da comissão, como parece ser o Vosso desejo. Por nossa parte, igreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre

humanidade aos piores horrores. Deus tem autoridade sobre a morte, perguntou um dos optimistas, são as duas caras da mesma moeda, de um lado o rei, do outro a coroa, sendo assim, talvez tenha sido por ordem de deus que a morte se retirou, A seu tempo conheceremos os motivos desta provação, entretanto vamos pôr os rosários a trabalhar.

Nós faremos o mesmo, refiro-me às orações, claro está, não aos rosários, sorriu o protestante. E também vamos fazer sair à rua em todo o país procissões a pedir a morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad petendem pluviam, para pedir chuva, traduziu o católico. A tanto não chegaremos nós, essas procissões nunca fizeram parte das manias que cultivamos, tornou a sorrir o protestante. E nós, perguntou um dos filósofos optimistas em um tom que parecia anunciar o seu próximo ingresso nas fileiras contrárias, que vamos fazer a partir de agora,

quando parece que todas as portas se fecharam. Para começar, levantar a sessão, respondeu o mais velho. E depois continuar a filosofar, já que nascemos para isso, e ainda que seja sobre o vazio. Para quê, para quê, não sei. Então porquê. Porque a filosofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer.

As Intermitências da morte, 2005

José Saramago

3 comentaris:

Anònim ha dit...

Gràcies! No se gens de portuguès, però m'ha agradat fer l'esforç per aquest paràgraf. No havia llegit "As Intermitências da morte", ni en sabia l'existència. Ara anirè a buscar-la a la llibreria a veure si la trobo en català.

Sonix ha dit...

Buen texto para homenajear al gran Saramago, yo también elegí un fragmento de esa novela para despedirlo.
Un saludito!

Belart ha dit...

Anònim, si t'ha agradat i l'has entès, prova de llegir-lo en la llengua mare. L'esforç, com tu dius, paga la pena.
Sonix, tens un blog molt prolífic. Al menys coincidim en un post. Ens anirem seguint...